Archaeology of the Urban

Arqueologia do urbano, abordagens e práticas

Publicação

Integrada no Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público em conjunção com o Projecto de Investigação Trans_Form_Actions, a publicação pretende por um lado dar visibilidade tanto aos trabalhos de projecto desenvolvidos pelos alunos ao longo do último ano e meio, como ao intenso e variado diálogo crítico que o Mestrado tem albergado e suscitado, seja nas suas sessões formais ou informais, seja através dos seus colaboradores regulares como dos seus convidados. Este corpo de trabalho crítico e prático encontra na publicação uma plataforma de comunicabilidade que extravasa os limites dialógicos do espaço da aula, do workshop ou da intervenção no espaço público. A publicação é bilingue em Português e Inglês.

Sinopse de conteúdos

No sentido lefevbriano do habitus, pretendeu-se investigar a natureza das formas de habitar o espaço urbano ao nível experiencial mais do que arquitectónico, simultaneamente entendendo este habitar como um palimpsesto acumulativo e sedimentar da dimensão experiencial do urbano.

Neste sentido a intervenção artística de cariz temporário, por vezes mesmo de escala diminuta, apresenta-se como uma forma de testar criticamente abordagens e identificações de problemas ou realidades com as quais nos podemos confrontar disciplinarmente, isto é pela geografia, pela arqueologia, pela arquitectura, pela curadoria, pela prática artística.

Contribuições

A publicação alberga tanto elementos visuais como conteúdo crítico escrito, pretendeu-se que a estratégia comunicativa tantos dos projectos como dos textos funcionasse de forma não mutuamente ilustrativa.

Para os projectos foram primordialmente chamados a contribuir os alunos do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público. Para os textos, foram convidados vários dos especialistas que têm estado envolvidos com o nosso trabalho.

Conteúdos

Álvaro Domingues, Habitar a rua da estrada: “eu moro nesse trajecto”

A rua da estrada é o espaço mais comum da urbanização em Portugal. No entanto, parece esconder-se numa espécie de amnésia, centrado que está o discurso e a prática na cidade histórica ou na cidade dita consolidada. A rua da estrada é uma coisa mal- amada: demasiado construída e congestionada para ser estrada, e sem qualidades de conforto e desenho urbano para ser rua. O espaço público, ou melhor, aquilo que é público no espaço traduz-se em múltiplas formas, apropriações, significados e vivências. Entre o asfalto e a porta dos edifícios, desenvolve-se uma “membrana” que reúne todos os cambiantes do público e do privado, ora com delimitações precisas, ora, mais frequentemente, sobrepondo espaços e signos onde a face pública da esfera privada se transacciona e se regula. A rua da estrada é um mercado, a estrada- mercado por onde os potenciais clientes passam de automóvel e a quem é preciso seduzir; o problema é fazê-los parar.

Este ensaio é constituído por uma série de fotos-textos onde se desenvolvem alguns temas recorrentes: a casa; a casa kitada; a montra e o edifício-montra; os códigos da estrada (sinaléctica e publicidade); as bermas e estacionamentos e, finalmente, os diálogos com a arte: artefactos e mensagens.

Inês Moreira, Micro práticas espaciais

Neste artigo proponho abordar o que denomino por “micro espaciais”. As “micro práticas espaciais” são experiências híbridas na intersecção da criação espacial (arte pública, arquitectura, cenografia), da produção crítica e da experimentação na curadoria, que se materializam através de projectos de colaboração entre diferentes agentes culturais informados pela teoria e criticamente posicionados no seu contexto social, político e económico.

Alocadas na intersecção da experiência artística, espacial e curatorial as “micro práticas espaciais” são indissociáveis da produção, que experimentam e elevam a uma dimensão performativa. As “micro práticas espaciais” são modalidades emergentes de abordagem da prática, em que o projecto/objecto e os processos/produção têm relevo na conceptualização e materialização.

As “micro práticas espaciais” assentam numa ideia/conceito e numa abordagem projectual e de desenho, contudo o que define e as torna particulares é a abordagem da dimensão prática, a importância dos aspectos da produção, a implicação dos autores nas questões materiais, tanto nos aspectos práticos/técnicos que estruturam a criação como na experiência quotidiana.

A ideia de micro prática refere-se à multiplicidade de micro processos activados pelo projecto (da encomenda, à resposta, à recepção, à interpretação) bem como aos processos de produção do objecto/espaço projectado e praticado (quase sempre invisíveis no “objecto” produzido). Operam a uma pequena escala, contudo, a ideia de “micro” remete especialmente para a micro política intrusiva com que estas práticas com pequena escala física (e com poucos recursos) podem induzir e potencialmente despoletar transformações extra-artísticas.

Estas experiências conduzem também a uma redefinição da ideia de prática curatorial. A curadoria vem experimentando grandes transformações, as filiações disciplinares tradicionalmente delimitadas pelas Humanidades em áreas como a História, a Filosofia, ou a Sociologia e praticadas em espaços convencionados da Arte – galeria, museu – vão-se fundindo com outras áreas do conhecimento. Interessa-nos como a actuação das “micro práticas espaciais” parte do espaço, da experiência prática, dos processos

práticasde produção, da materialidade e da construção não estritamente discursiva, exercitam e reinventam modalidades híbridas de relação entre artista-arquitecto-produtor-curador, ensaiando o que considero ser modalidades de conhecimento curatorial extradisciplinar. O artigo abordará um pequeno conjunto de casos concretos (exposições, objectos, espaços e eventos) que exercitam colaborações entre artistas / arquitectos / produtores / curadores / comunidades, focando a conceptualização, a concepção e as modalidades de produção crítica activadas por autores e investigadores quando implicados na prática.

Jorge Silva Marques, O desenho e o levantamento do lugar

A importância da interpretação dos efeitos ou das relações psico-sociais e senso- peceptivas nos sistemas pedagógicos de aprendizagem dos processos de levantamento do lugar é, não só, útil para o projecto, como conduz por vezes a alterações significativas na definição ou extensão do lugar.

È importante o contributo de alguns conceitos desenvolvidos a partir de outras areas do conhecimento, nomeadamente, da psicologia, da sociologia ou da topologia, explicitando-se na emergência de um conhecimento pluridisciplinar que contribui de certa forma para a construção de uma imagem completa do lugar.

A imagem completa é sempre uma imagem que integra para alem de factores arquitectónicos, ambientais e espaciais, factores culturais ou psico-sociais. Na hora de precisar, cada individuo, experimenta espontaneamente o espaço, como meio ou condição onde cada coisa assume o seu lugar. E num primeiro momento fa-lo de um modo intuitivo e ainda a tentar perceber as diferentes indicações perceptivas básicas.

“ Aliás a percepção do espaço é uma percepção integradora dos diferentes inputs, sensoriais para alem da visão, da cinestesia e da audição, a experiência perceptiva do espaço envolve também o olfacto, que nos indica determinadas localizações e direcções, o tacto, que intervém na sensação visual da textura e nos ajuda a identificar onde estamos, bem como processos cognitivos e mnésicos”.

A interacção destes factores pode dar origem a dois niveis de percepção do lugar: um primeiro nível que assenta na percepção da organização espacial e um segundo nível que assenta na percepção do modo como os indivíduos usam o espaço naquilo que tem que ver com relações interpessoais e de grupo. O modo como operamos dentro desse espaço é influenciado naturalmente pela idade, sexo, tipo psicológico ou nível social, cultural e económico.

Gonçalo Leite Velho

O termo Arqueologia é hoje aplicado num espectro amplo. Não deixa no entanto de ser curioso que há medida que o termo ganha cada vez mais espaço, os arqueólogos vão sendo cada vez mais reduzidos (uma redução de espaço e capacidade de actuação, mais do que de número de possíveis praticantes). Enquanto Arqueologia Urbana a intervenção arqueológica tem-se mantido sobretudo enquanto “arqueologia de emergência”, um reduto repleto de precariedade que remete a Arqueologia para o campo de uma prática mecânica.

Perante um circuito conceptual (a Arqueologia é o que os arqueólogos fazem) pretendemos avançar com a proposta de um acto que possa quebrar com o quadro de pulsão existente. Pensamos que a primeira etapa passa pela operacionalização da inversão dos termos (o que os arqueólogos fazem é a Arqueologia). Pretendemos assim abrir o potencial da archê-logia (a tarefa de pensar sobre os princípios), o que permite que possamos dar a volta para um entendimento diferente da própria prática arqueológica.

Pedro Bandeira

“The House of Arts and Culture” (2008, PB+DS+PR+DM) é um projecto de arquitectura para Beirute que propõe uma reflexão em torno da memória da cidade e das suas ruínas de guerra. Provocatoriamente desenha-se uma “caixa-negra” (metáfora da informação que resiste ao desastre”) que repousa num labirinto de entulho estruturante de um espaço aberto de discussão e confronto; espaço público, portanto. Enfatiza-se uma “arqueologia do urbano”, simulada, superficial mas simultaneamente simbólica. Questionamos a sua legitimidade referenciada nas imagens de Beirute, 1991, de um Robert Frank ou de um Gabriel Basilico. Estetização indevida? E se a arte e a arquitectura não viessem sempre depois? Não haveria guerra? …Gabriela Vaz-Pinheiro

“Da crise da estética à esteticização da crise” No contexto desta publicação, que tem como mote a noção de uma possível “arqueologia do urbano”, a estética (a par da dita esteticização de vivências de carácter crítico na sociedade actual) tem um papel aparentemente acessório ou supérfulo, mas justifica-se na necessidade de ponderar e avaliar formas de intervir sobre essas espécies de escombro deixadas pelo consumo, pela guerra, pelo despojamento. A arte e a arquitectura, laborando neste layering, camadas sucessivas de experiência nas suas mais diversas manifestações materiais, nunca como agora justificaram o par ética/estética.

António Olaio

Ensaio visual a propósito do tema da publicação.

Paulo Luís Almeida, Transferências de uso no espaço urbano

Este texto procura expor os processos de ‘transferência-de-uso’ como modelos de experiência e modificação perceptiva do espaço urbano. Por transferência-de-uso designa-se um mecanismo criativo pelo qual uma acção empresta ou adopta padrões de outras acções, substituindo-os nos seus próprios meios e contextos de actuação.

Como prática artística, a transferência-de-uso supõe o redireccionamento e substituição de um acto performativo, que é divorciado da sua motivação original e recombinado com fragmentos de outras acções, com objectivos, atitudes e conteúdos distintos. Como processo performativo, estas transferências supõem frequentemente a emergência de gestos de acções íntimas em contextos públicos, contraindo e distendendo os limites preestabelecidos de cada campo. Ao pôr em conexão a esfera do íntimo, do privado e do público, as transferências-de-uso criam áreas de intersecção imprevistas ou pouco aproveitadas nas práticas quotidianas. Quando levadas a cabo em contextos públicos, introduzem novas relações sintagmáticas e associativas naforma como percebemos e experimentamos o espaço urbano através de oscilações provocadas no seu tecido performativo.

R2, Lizá Defossez Ramalho e Artur Rebelo

Ensaio visual a propósito do tema da publicação.

Gabriela Vaz-Pinheiro

“Da crise da estética à esteticização da crise” No contexto desta publicação, que tem como mote a noção de uma possível “arqueologia do urbano”, a estética (a par da dita esteticização de vivências de carácter crítico na sociedade actual) tem um papel aparentemente acessório ou supérfulo, mas justifica-se na necessidade de ponderar e avaliar formas de intervir sobre essas espécies de escombro deixadas pelo consumo, pela guerra, pelo despojamento. A arte e a arquitectura, laborando neste layering, camadas sucessivas de experiência nas suas mais diversas manifestações materiais, nunca como agora justificaram o par ética/estética.

Lígia Paz

Confrontando o actual cenário de elevado alheamento por parte dos artistas locais relativamente às questões sociais e políticas que afectam a nossa vivência urbana comum, o presente texto incide sobre alguns aspectos resultantes da recente transformação ocorrida numa das principais artérias da cidade do Porto: a Avenida dos Aliados.

Dando continuidade ao questionamento urbanístico e ideológico desta remodelação, e fazendo eco da referida necessidade de desenvolvimento, difusão e discussão de projectos artísticos que reflictam as problemáticas da urbanidade, é apresentado como exemplo uma acção performativa levada a cabo pela artista Isabel Carvalho em 2007, na fonte localizada no topo da referida avenida. Assim, apresentando-se como uma crítica à referida acção, sublinhamos alguns dos principais temas que este encerra, como são as questões de activismo político, do questionamento da construção ideológica do espaço urbano, e das questões de género.

Mário Moura

Este ensaio fala sobre a forma como as cidades, e em particular Nova Iorque, são representadas em jogos de consola do género sandbox, em que uma região urbana é simulada em grande extensão e pormenor.

Projectos de alunos MADEP

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Para solicitar um exemplar contactar:
joana@fba.up.pt
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